terça-feira, 1 de novembro de 2016

HISTORIA - ESCOLA TÉCNICA DE ELETRÔNICA FRANCISCO MOREIRA DA COSTA (ETE)




PARTE 1 - A VISIONÁRIA


    A Escola Técnica de Eletrônica (nível médio) “Francisco Moreira da Costa” (ETE), criada em 1959, nasceu do idealismo de Luzia Rennó Moreira (Sinhá Moreira) e consolidou-se coma dedicação dos primeiros jesuítas diretores, dos primeiros professores e funcionários. Para criar a ETE, Sinhá Moreira encontrou muitos obstáculos, mas a vontade de dar oportunidade para os jovens estudarem sem sair de sua cidade superou cada um deles.

Luzia Rennó Moreira ( Sinhá Moreira)

    Luzia Rennó Moreira, conhecida como Sinhá Moreira, nasceu em Santa Rita do Sapucaí (1907-1963), uma pequena cidade situada no interior do sul de Minas, que desenvolveu sua economia nas atividades agropecuárias.

Santa Rita do Sapucaí - MG (início dos anos 50) 

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ESCOLA TÉCNICA DE ELETRÔNICA FRANCISCO MOREIRA DA COSTA (ETE)



     Como todas as jovens de sua época, Sinhá Moreira foi educada para ser dona de casa. Sua formação acadêmica se resumia no curso Normal, o que também era comum entre as moças da época. Mais tarde se casou com um primo Antônio Moreira de Abreu, que era diplomata e logo depois do casamento, o casal foi para os Estados Unidos.


     Com o casamento, Sinhá Moreira conheceu os Estados Unidos logo após o final da Primeira Guerra Mundial, observou seu impressionante desenvolvimento econômico, e naturalmente se encantou com esse mundo de prosperidade. Viveram alguns anos fora do Brasil, quando teve a oportunidade de conhecer além dos Estados Unidos, a China, o Japão e muitas outras nações.

         Quando retornou, pediu o desquite e voltou a residir em Santa Rita do Sapucaí. A realidade, que encontrou em sua cidade, não a agradou. Os jovens precisavam se mudar para conseguir estudar e muitos não regressavam. Desejando que eles pudessem estudar, sem a necessidade de partir, Sinhá Moreira resolveu fundar uma escola técnica de eletrônica .
   
    A ousadia desta mulher em fundar uma escola técnica de eletrônica em uma cidade tipicamente rural surpreendeu a todos e revelou seu espírito empreendedor.
Vale lembrar que a ETE se destacou desde a sua fundação, pelo fato de ser a primeira escola de nível médio a oferecer Curso Técnico de Eletrônica na América Latina o que transformou a então pequena cidade, tipicamente rural, em Vale da Eletrônica na atualidade.



PARTE 2 - O INÍCIO 

     Desde o início, a ideia era fundar uma escola que admitisse adolescentes a partir de 14 anos e que desse logo uma profissão a eles. Numa ocasião em que Sinhá Moreira esteve na cidade mineira de Lambari, conheceu o professor João Antônio de Souza Fernandes Neto e após algumas conversas, ficou convencida de que deveria lutar para introduzir uma escola técnica de eletrônica no Brasil. Porém, seus amigos e aliados Alda, Joaninho e padre José não tinham conhecimento do ramo. Embora fosse totalmente leiga sobre o assunto não se deixou vencer. Resolveu pedir ao professor José Nogueira Leite, em Itajubá, que traçasse um projeto de escola de eletrônica. A princípio ele não considerou a ideia viável, mas diante da determinação de Sinhá o projeto começou a ser feito. Sinhá Moreira ficou ainda mais empolgada após uma conversa com seu amigo Walter Telles, que acabara de chegar dos EUA, onde tinha assistido a uma palestra de Albert Einstein, afirmara que o mundo giraria em torno da eletrônica. 
     
     Como, criar uma escola não é fácil e Sinhá começou a busca, primeiramente, por quem iria administrá-la e decidiu pelos padres jesuítas. Em seguida, a busca por professores especializados na área foi também outra grande dificuldade, pois ainda não existia nenhuma escola de eletrônica na América do Sul. Devido ao fato de na época não haver regulamentação para esse tipo de escola, Sinhá Moreira recorreu ao cunhado Bilac Pinto, grande conhecedor das leis e constituintes brasileiras, que explicou-lhe o que seria necessário fazer um projeto de escola de nível médio para ser possível a legalização em decreto do governo. Após inúmeras viagens e consultas com os professores do Instituto do Eletrotécnico de Itajubá, do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, em São José dos Campos e das Escolas Federais de Engenharia do Rio de Janeiro, sem, contudo, obter êxito, só conseguiu concluir o projeto sob a orientação do professor Alfonso Martignoni, consultor técnico da Diretoria do Ensino Industrial. Outro desconforto se apresentava. Bilac Pinto era da UDN, partido adversário do PSD, de Juscelino Kubitschek, presidente do Brasil. Devido às inúmeras obras sociais a que se dedicava, Sinhá Moreira era muito querida pela população, fato que a tornava um cabo eleitoral excepcional. Em Santa Rita do Sapucaí, a UDN era apoiada, essencialmente, pela família Moreira, e o PSD pela família Capistrano.Porém, quando se tratava de benefícios para a cidade, ultrapassavam-se os limites das rivalidades políticas e prevaleciam os interesses de bem comum. 

Caneta de ouro de Sinhá Moreira

         Sinhá Moreira foi obrigada a percorrer os gabinetes do Rio de Janeiro, que era a capital do país, com o intuito de criar o primeiro curso em eletrônica no Brasil, para posteriormente inaugurar a escola. Movida pela certeza da necessidade da educação dos jovens para o trabalho, após muita luta e perseverança, Sinhá Moreira levou sua caneta de ouro para o presidente Juscelino Kubitschek assinar o Decreto nº. 44.990, em 17 de setembro de 1958, a fim de registrar a criação dos cursos de eletrônica em nível médio no Brasil. 




PARTE 3 - SINHÁ MOREIRA



         Para Sinhá Moreira era imprescindível a criação da escola, pois no ambiente em que vivia e se educara, os conceitos prevalecentes consistiam em: educação para a elite econômica e política, para manter a hegemonia das famílias tradicionais e instrução básica mínima para as camadas populares, para não produzir desarranjos na estrutura social vigente. Com visão totalmente divergente, Sinhá acreditava na educação como meio de melhoria de qualidade de vida e, sua generosidade e amor ao próximo, fizeram com que ela se preocupasse com a formação acadêmica e profissional dos menos favorecidos.


        Ziraldo Alves Pinto, ao redigir o prefácio do livro Sinhá Moreira – Uma mulher à frente de seu tempo (FONTES, 2007), comparou a figura de Sinhá Moreira com a de um anjo da guarda que veio, guiado por Deus, conduzir os menos favorecidos. 
"Gosto muito de ser o autor desta homenagem a essa lendária figura que marcou muito minha vida. E sonhar para que, em cada uma das comunidades de nosso estado, seu povo tenha a felicidade de ver nascer em sua terra um anjo da guarda assim, com consciência social, com desmedida generosidade e uma forma de crer que há um Deus que aponta os anjos que devem nos guiar."

       O amor sem medidas desta mulher por seus semelhantes traçou um novo panorama na história de Santa Rita do Sapucaí e influenciou na mudança social e econômica de toda a região. A valorização humana, o resgate da autoestima e dos valores morais e cristãos sempre estiveram em primeiro plano na vida desta mulher notável.

     Com a certeza de encontrar palavras de conforto e esperança, bem como recursos materiais, os pobres e desvalidos buscavam amparo em seu amor e jamais eram ignorados por esta mulher ilustre. Com o objetivo de proporcionar oportunidade aos jovens de viver com dignidade e por seus próprios méritos, Sinhá Moreira não teve medo de sonhar e sua ousadia serviu de exemplo para as próximas gerações.

    Na contramão da tradição da cidade, Sinhá Moreira, representante da aristocracia rural, decidiu fundar uma escola de eletrotécnica, que viria suprir parte dos técnicos que o Brasil necessitava. O Decreto nº 44.490 foi um marco na história da educação técnica de eletrônica no Brasil, pois a partir dele foi fundada a Escola Técnica de Eletrônica “Francisco Moreira da Costa”, pioneira não só do país, mas também de toda a América Latina.





PARTE 4 - A CONSTRUÇÃO 


       Todavia, outro desafio se apresentava, a escola precisava ser construída. Sinhá Moreira fez uma proposta de convênio ao Ministro da Educação, Clóvis Salgado; o governo ficaria responsável pela construção do prédio da escola e ela doaria o terreno como também se encarregaria de sua manutenção, através da Fundação Dona Mindoca Rennó Moreira, entidade mantenedora da escola. 


      Em 6 de janeiro de 1959, a fundação e o Ministério da Educação e Cultura (MEC) oficializaram um convênio para a construção do prédio. Após a assinatura do Decreto 44.990, que permitiu a criação de cursos de nível médio no Brasil e do convênio firmado com o MEC, a realização do sonho de Sinhá começou a se concretizar.

   A ETE começou a funcionar em marco de 1959 , provisoriamente, em um prédio construído para abrigar um grupo escolar. Inicialmente, Sinhá Moreira planejou manter a escola na sede provisória e construir o prédio definitivo no morro do esguicho, onde atualmente se localizava a empresa Linear. Porém, ela considerou a área escolhida pequena e acabou substituindo por outro terreno maior, situado às margens do rio Sapucaí. 

      
       Assim que projeto do arquiteto Luís Afonso d’Escragnolle Filho foi alterado e recebeu a aprovação do Ministério de Educação e Cultura a construção definitiva desta instituição foi iniciada, não deixando dúvida que, Sinhá Moreira foi a responsável pelo primeiro passo do desenvolvimento educacional em Santa Rita do Sapucaí.



        Com o projeto aprovado e a maquete pronta, deu-se início a construção. Os tijolos eram fabricados numa cerâmica da cidade, a brita e o pó de pedra eram retirados da pedreira, próxima à entrada de Santa Rita do Sapucaí. A madeira era comprada no Paraná e outros materiais vinham de Belo Horizonte, Mogi Guaçu e Sorocaba. O marceneiro, Aristeu José Pereira (Teteu), fabricou os
móveis e portas com incansável dedicação.


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PARTE 5 - O Sonho Realizado

        Com a sede definitiva da escola construída, Sinhá Moreira teve a alegria de ver seu sonho completamente realizado.


        As espaçosas instalações favoreceram a integração entre os alunos e, certamente, das conversas despreocupadas nos corredores da escola, brotaram amizades duradouras, enriquecendo a formação humana dos mesmos.


     Pode-se afirmar que Sinhá Moreira destacou-se pelo pioneirismo da criação da ETE, no entanto, de acordo com Dolabela (1999), Sinhá Moreira foi também precursora do crédito educativo, pois distribuiu bolsas, financiou os estudos de muitos jovens.
Favoreceu também o crédito habitacional, devido ao fato de ter construído um bairro, com 80 casas para pessoas de baixa renda Tal feito mudou significativamente a história de muitas pessoas em Santa Rita do Sapucaí.

         Dolabela (1999) enfatiza que a atitude é mais importante do que o conhecimento técnico, pois Sinhá Moreira não entendia nada de eletrônica, nem tampouco os companheiros que a apoiavam. No entanto idealizou, construiu e manteve a ETE o que transformou com suas ações o Vale do Café em Vale da Eletrônica. 

         A satisfação de Sinhá Moreira era enorme. Além de sentir que a escola realmente iria contribuir para o desenvolvimento da eletrônica no Brasil, ela viu a cidade de Santa Rita do Sapucaí se tornar conhecida e atrair estudantes de todo país, que enchem as ruas e restaurantes, por criarem um clima agradável com jovens empenhados em estudar.

     Segundo o jornal Empório de Notícias, além de sua preocupação com a educação e com a moradia, Sinhá Moreira custeou tratamentos médicos, dentro e fora de Santa Rita do Sapucaí, patrocinou a Sociedade de Assistência aos Pobres (Asilo), o Hospital Antônio Moreira Costa, o Posto de Puericultura, várias escolas e outras entidades.

    Verdadeiro exemplo de desprendimento e generosidade, no período em que lecionou, Sinhá usava sua remuneração para ajudar os pobres e a Igreja Católica. Diante das diferenças sociais e econômicas de seu povo, Sinhá Moreira não se resignou. Destinou parte de sua fortuna para investimento em moradia, educação, saúde e amparo aos idosos. Sua generosidade, como já foi dito, não tinha limites e aqueles que necessitavam, buscavam o amparo de Sinhá para suas necessidades básicas, tais como alimentação, vestuário e medicamentos. Não achando seus feitos suficientes, essa mulher notável ousou ainda mais, sonhou com uma vida mais justa para os menos favorecidos e fez de sua vida, sua maior doação.

     Sinhá Moreira também foi exemplo de humildade. Mesmo sendo de família rica, não vestia roupas luxuosas, tinha hábitos simples e tornou-se uma figura extremamente popular em sua cidade natal. Devido a isso, a gratidão que o povo demonstrava pela imagem que ela construiu por meio das ações que realizara em sua região, ultrapassou estados. Além de Ziraldo, Raquel de Queirós, também escritora, também fizera uma honrosa homenagem que foi publicada na Revista O Cruzeiro, de 14 de março de 1959.






     Fontes (2007) escolheu um fragmento dessa homenagem que Rachel de Queiroz fez para Sinhá Moreira, para ilustrar a capa de seu livro: Sinhá Moreira Uma mulher à frente do seu tempo, que retrata não só a simplicidade desta mulher notável, mas também sua bondade e senso de justiça:
"Na sua modéstia, na sua simplicidade, dona Sinhá Moreira dá um lindo quinau nos nossos ricaços de vistas curtas, que cuidam só servir o dinheiro para luxos de novorico  e exibições no El Morocco e no Elephant Blanc. Milionário brasileiro ainda não aprendeu que, no mundo de hoje, o rico tem de se fazer perdoar pela sua riqueza, suprindo, com iniciativas de cultura e assistência social, as lacunas do serviço público. E então aqui, onde o imposto de lucros extraordinários não funciona, e o imposto de renda só onera realmente os assalariados, eles deviam mais que nenhum outro, pensar um pouco nos problemas de seu país."

       Não é tarefa fácil traçar o perfil dessa mulher extraordinária. Sem dúvida, pode-se afirmar que a semente do Vale da Eletrônica foi plantada por Sinhá Moreira, pois a sua generosidade e espírito empreendedor fizeram brotar um ambiente propício para que os jovens pudessem permanecer em Santa Rita do Sapucaí, com suas ideias, seus projetos e seus sonhos e, assim, criar novas indústrias, que passaram a dar o tom de desenvolvimento à cidade. 
A contribuição de Sinhá Moreira é, sem dúvida, indescritível, pois é sabido que o desenvolvimento econômico só se sustenta à medida que o rumo das decisões esteja centrado em um projeto social.

       Em seu discurso de posse, na Academia Brasileira de Letras, Guimarães Rosa disse que: “As pessoas não morrem, ficam encantadas”, pois acredita-se que aqueles que viveram intensamente permanecem presentes e atuantes naqueles que virão depois e desejam e esforçam-se para seguir os passos ou fazer brotar, crescer, florescer e frutificar as sementes que foram lançadas na sua passagem pela vida.

      Muito doente, Sinhá Moreira resolveu antes de partir, doar a maior parte de seu patrimônio à Escola Técnica de Eletrônica “Francisco Moreira da Costa”, comprovando que nem a morte seria capaz de apagar em seu espírito a generosidade e o comprometimento com a educação dos jovens. 
Em 09 de março de 1963, o povo de Santa Rita do Sapucaí chorou a morte de Sinhá Moreira. 

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PARTE 6 - A FUNDAÇÃO DA ETE

       A Escola Técnica de Eletrônica “Francisco Moreira da Costa” foi fundada em primeiro de março de 1959, com uma proposta educativa e modelo de ensino, apoiados no conceito de escola de tempo integral e de estrutura de residência estudantil. Como foi dito na seção anterior, idealizada por Sinhá Moreira, a ETE FMC iniciou suas atividades em 1959, a partir do Decreto Federal nº. 44.490, de 17 de setembro de 1958. 

      Sinhá Moreira entregou a administração da escola e a orientação pedagógica do ensino à Companhia de Jesus. O Padre Javier Alonso Gil elaborou o primeiro projeto pedagógico da ETE. O ensino formal foi organizado em disciplinas técnicas (teóricas e práticas) e em disciplinas de formação básica clássica: disciplinas científicas, línguas (Português e Inglês) e disciplinas de formação geral (Estudos Sociais e Formação Cristã). O estágio obrigatório, para complementação da formação profissional, era realizado durante o quarto ano do curso. 

          O primeiro exame de seleção para matrículas foi realizado em 1959. Dentre os 46 candidatos inscritos, apenas 13 foram selecionados para formar a primeira turma da escola. Os primeiros alunos matriculados na ETE tinham aproximadamente 18 anos, sendo que alguns já haviam concluído o curso secundário.

1ª turma da ETE

      As disciplinas técnicas teóricas eram, predominantemente, discursivas e informativas a respeito dos fenômenos, equipamentos e resultados da aplicação da eletrônica. Enquanto as disciplinas técnicas práticas eram desafiadoras com a proposição de trabalhos e montagens de kits de aparelhos de medidas e outros equipamentos que eram colocados para funcionar. Havia também, grande exigência nas disciplinas de formação clássica básica. Porém, as atividades artísticas, culturais e esportivas eram organizadas pelos próprios alunos, por meio do Grêmio Estudantil da ETE (GETE). 

         Nos primeiros anos de funcionamento do curso, a avaliação da aprendizagem escolar era realizada dentro de um determinado período, sem prévia comunicação aos estudantes. A reprovação, em qualquer disciplina, significava o desligamento do estudante da escola.




FRED CUNHA NEWS

Um comentário:

  1. O problema é que (pelo menos aqui no Brasil) as pessoas do porte da Dona Sinhá Moreira não estão envolvidas na política ,imaginemos que país dos sonhos seriamos hoje se tivéssemos tido esta mulher na presidência da república.

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