quinta-feira, 5 de novembro de 2015

ESPAÇO HISTORIADOR E PROFESSOR ANDERSON BAPTISTA - CIDADE ANTIGA






Santa Rita do Sapucaí: o cotidiano de um nascente vilarejo em meio às agitações da Corte D. Pedro I.

Parte I

      Rio de janeiro, 12 de outubro de 1822, o grande heroi do Brasil era coroado Imperador Perpétuo do império recém – nascido. Enquanto, as agitações pela independência do país provocavam calorosas reações por várias regiões da ex- colônia, no interior das Minas Gerais, em especial, na porção mais a sul da província, uma 
família portuguesa iniciava uma nova etapa de sua vida. Foi assim, que começou a trajetória de uma pequena frequesia que se tornaria um importante centro tecnológico de uma nação, não mais império, agora república.

     Na capital do Império, as disputas políticas eram intensas. Os jornais de oposição se confrontavam com os jornais que defendiam o imperador Pedro I. Por um lado, apontado como irresponsável, mulherengo e que não gostava de seguir os proclames imperiais enquanto do outro, considerado por seus partidários como um imperador liberal. 

     Mas, um fato em especial, vem marcar a vida da Corte brasileira, exatamente quando o pequeno vilarejo fundado por Manoel da Fonseca celebrava a sua primeira missa - marco oficial do início da cidade de Santa Rita do Sapucaí -, uma bela dama paulistana, o grande amor, a maior e mais arrebatadora paixão do jovem imperador, mudava-se para a capital, se instalando em um palacete ao lado do Palácio Imperial, provocando um dos maiores, quiçá, o maior escândalo da história política brasileira. A jovem encantadora, Domitila de Castro Canto e Melo, a futura Marquesa de Santos, abalava as estruturas morais de uma sociedade de conservadorismo extremado ao assumir publicamente sua paixão e seu romance com o imperador do Brasil. 

     Como essa notícia chegou ao Ribeirão do Mosquito? Como era o dia-a-dia das famílias que habitavam o pequeno vilarejo? Qual o papel desempenhado pelas mulheres nos rincões desse império tão jovem e de momentos tão atribulados? O que pensariam as mulheres do futuro Ribeirão do Vintém sobre a “favorita” do imperador, do qual um dia a família de Manoel da Fonseca foi agraciada com terras devolutas ás margens do Sapucaí?...

Texto: Professor Anderson Baptista


Fontes: A carne e o sangue (Mary Del Priore. Ed. Rocco. 2012).

             Documentário A Marquesa de Santos (Tv Cultura SP. 2007 ).

            Site: www.pmsrs.mg.gov.br


Parte II

     Não tardou para que as mais efervescentes  noticias da Corte chegassem aos ouvidos dos brasileiros mais isolados desse império de dimensões continentais. A pequena comunidade que mais tarde seria batizada de Santa Rita do Sapucaí tinha acesso ás informações que vinham da corte através dos viajantes ou tropeiros, a fonte de 
informação mais comum na época. Santa Rita era um vilarejo de poucas dezenas de pessoas que seguiam os padrões sociais típicos da primeira metade do século XX. 


     As sinhás e sinhazinhas herdavam enxovais de seusantepassados em sua maioria vindos de Portugal, Inglaterra e França. Roupas bordadas a mão, confeccionadas com tecidos importados,
reservados para ocasiões como festas em família, entre amigos e, 
principalmente, religiosas. Os decotes eram inexistentes e o
comprimento não podia deixar à mostra os tornozelos, pois estes eram considerados fetiches sexuais, uma verdadeira porta aberta para o “pecado”. Os costumes rigorosos vindos de Portugal e 
mantidos com mãos de ferro pela igreja não deixavam espaço para comportamentos mais ousados. As missas eram o principal evento social cotidiano da comunidade.
  
       Os escravos por aqui eram poucos, porém, viviam dentro dos padrões estabelecidos pelas regras sociais. Ainda se podia conviver com alguns bugres que tinham suas aldeias espalhadas pela região. Embora, esse convívio era evitado pelo fato de que os índios não eram vistos com olhos de quem inspira confiança. 


      Casamentos eram circunstâncias especiais. As moças casavam-se em regra entre 12 a 14 anos. Os rapazes entre 15 a 16. A separação era encarada como uma afronta aos costumes cristãos. Uma família de poucos bens não aceitaria de forma alguma que sua filha largasse um matrimônio. A honra e a dignidade eram os bens mais preciosos. E mesmo as de famílias abastadas seriam apontadas nas ruas pelas senhoras de “conduta irrepreensível”. 

     Num contexto social e moral não muito diferente do de Santa Rita do Sapucaí, viveu Domitila de Castro Canto e Melo - a Marquesa de Santos. Em São Paulo, antes de conhecer o seu “príncipe”, era desprezada e evitada pelas senhoras da cidade. Havia se separado do marido. Sua fama era a pior possível. Agora, na capital, vivia uma vida de luxo, de “beijas mãos”, de muitos bochichos e intrigas palacianas. Mas, reconhecida como o grande amor do imperador, era o caminho mais fácil para aqueles que 
desejavam obter algum tipo de favorecimento pessoal junto a D. Pedro I. 

     Domitila serviu de exemplo para as senhoras e senhoritas de Santa Rita do Sapucaí, e de todo o Brasil, de como não se comportar. Sua história com o imperador escandalizou aos reinos mais distantes da Europa. A ousadia desses dois talvez seja o teor mais instigante dessa história.


     Em 1829, o imperador casou-se novamente. Havia ficado viúvo da imperatriz Leopoldina, em 1826. Dona Amélia, a futura imperatriz não titubeou. Exigiu que Pedro I expulsasse Domitila do Rio de Janeiro e a proibisse de lá pisar pelo resto de sua vida. 

Contrariando seus desejos mais íntimos, o imperador se curvou diante das obrigações políticas. A Marquesa de Santos voltava para São Paulo e nunca mais colocaria olhos em seu amado imperador, morto em 1834. Após a morte de Pedro I, Domitila se casa com Rafael Tobias de Aguiar, o patrono da ROTA em São Paulo. Falece em 1865.


     Santa Rita do Sapucaí assistiria de forma tímida o desenrolar da história do Brasil. E, não muito diferente da maioria das cidades e vilarejos do império, pouco ou quase nada vivenciou em tempo real os acontecimentos da nação, apenas ficava sabendo. Mas, a segunda metade do século XIX seria diferente. O imperador D. Pedro II dava ao Brasil ares de modernidade e o antigo Ribeirão do Mosquito, teria na produção de café e leite a ascensão de ilustres e abastadas famílias, com reconhecimento junto à Corte dos Orléans – Bragança.

    

Fontes: 

             A carne e o sangue (Mary Del Priore. Ed. Rocco. 2012).

             Documentário A Marquesa de Santos (TV Cultura SP. 2007).

             D. Pedro, a história não contada: o homem revelado por cartas e documentos 

inéditos (Paulo Rezzutti, Geração Editorial, 2015).

            Titília e Demonão - Cartas inéditas de Dom Pedro I à Marquesa de 

Santos e Domitila – A Verdadeira História da Marquesa de Santos. ((Paulo Rezzutti, 

Geração Editorial, 2013).

           Site: www.pmsrs.mg.gov.br


FRED CUNHA NEWS

Nenhum comentário:

Postar um comentário