quarta-feira, 5 de agosto de 2015

HISTORIAS ANTIGAS - LENDAS E CAUSOS - DITO CUTUBA - PARTE 2 - Santa Rita do Sapucaí - MG




Enviada pelo amigo Hugo Moraes – Histórias e personagens de antigamente.

DITO CUTUBA


       Nos janeiros antigos, o velho Sapucaí inchava e ocupava as várzeas: primeiro o `Campo do Flamur´, em seguida todas as áreas baixas até a estrada de ferro (da RMV - Rede Mineira de Viação, mais conhecida como `Ruim Mais Vai´). Entre uma enchente e outra, nadadores azarados e/ou imprudentes afogavam e desapareciam. Nessas, o Dito Cutuba era convocado para achar o corpo. Excelente nadador, fôlego de 14 gatos; no resgate dos corpos ou em exibições era o personagem/show; atraia multidões. Saltava do alto da ponte, mãos amarradas nas costas (não me lembro se alguém isento conferia a amarração), desviava das galhadas, boiava e sumia. Passavam os minutos e muitos gritavam: “Afogou”; já outros ecoavam: “morreu”, “morreu”; até que alguém berrava: “`alá´, `alá´ ele”. E o Dito Cutuba surgia nadando vigorosamente; quase sempre rio acima da ponte.
      Há uns meses, conversando sobre esses velhos tempos com o meu amigo Edelwais Teles ele lembrou de um episódio protagonizado pelo personagem. 
Relembrei: instalou-se um circo na cidade; a chegada de circo era sempre um grande acontecimento, todos queriam assistir os espetáculos. Mas, a decepção: não tinha o principal, o leão; o auge de todo espetáculo circense era o domador se exibir, desafiando a fera. A estréia foi decepcionante, indicando o fracasso da temporada.
       Dito Cutuba era um dos santa-ritenses dos mais entusiasmados com circos; nas suas múltiplas atividades, sempre ajudava na montagem, participava das carreatas pela cidade, anunciando as atrações. Enfim, vibrava. Neste caso, solidarizou-se com os proprietários. Procurou o dono do circo fez uma proposta. O dono, embora cético; mas, sem alternativas, aceitou.
     Na tarde seguinte um caminhão (como era praxe dos circos) circulou pela cidade, anunciando sua nova atração:
“Esta noite, espetáculo único no Brasil: antropófago africano, o homem selvagem que veio da África e come gente”. O circo lotou; abriram a apresentação com uma jaula mal iluminada onde se vislumbrava uma figura urrando; não se sabia se gorila ou humano. Era o Dito Cutuba, pintado de preto (gordura com carvão).
Seguiram-se as atrações: trapezistas, engolidor de fogo, atirador de facas, entremeadas com os palhaços. E o povo impaciente, gritando que queria ver o comedor de gente. Chegando a hora, o mestre de cerimonias anuncia: “Distinto público, vamos apresentar a besta-fera africana que estraçalha e devora homem, mulher e até crianças”. A jaula é empurrada para o centro do picadeiros – e a figura sinistra sempre urrando. Afastadas as cortinas, o monstro começa a saltar nas grades ameaçando despedaçá-las. E o povo também gritando – a maioria de pavor. Nessa hora, um espectador acachaçado, conhecido arruaceiro, corre para a jaula, encosta nas grades e desafia. O Dito Cutuba salta sobre ele, agarra o valentão e com uma dentada, arranca-lhe um pedaço da orelha e começa a mastigar. O bebum, sangrando, sai em desabalada carreira e foge do circo. Não apresentou queixa na polícia, sumiu no mundo por muito tempo.
    Todos os dias que o circo continuou na cidade, lotava. E ninguém mais apareceu para desafiar a fera.
FRED CUNHA NEWS

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